Keidje Futebol

segunda-feira, outubro 04, 2004

McCarthy

Dos 7 pecados mortais, a Gula é sem dúvida nenhuma aquele que mais vitima os seres humanos. O FC Porto no proémio desta temporada tinha para o lugar de ponta de lança, Jankauskas, Postiga, Hugo Almeida e McCharty e se necessário ainda poderia desenrascar com Derlei e Maciel, avançados móveis e polivalentes, disponíveis para qualquer tipo de tarefa. Todos eles atletas com provas dadas e de evidente qualidade.

Depois de muitos turbilhões, irracionalidades, indelicadezas e precipitações neste início de época, o Porto acabou por livrar-se de Jankauskas e contratou Luís Fabiano. E eu agora pergunto: Porquê?? Seria fácil entender se Luís Fabiano fosse Van Nistelrooij ou Schevchenko. Lol, é provável que muitos até tenham pensado isso, quando os jornais desportivos com aquele marketing à brasileira, anunciavam antecipadamente a contratação de Luís Fabiano para o FC Porto como se ele fosse o novo Messias do futebol. Não é. E por Luís Fabiano ser tão terráqueo e talentoso como os outros que o Porto já tinha, não se percebe a sua contratação, a não ser que seja por alguma manobra financeira à Pinto Da Costa.

Mas o problema principal foi causado por Victor Fernandez. McCarthy é um ponta de lança com história de golos em Portugal e que no ano passado até foi o melhor marcador do campeonato nacional chegando à marca de 20 golos. Há quem não goste dele por não ser tão enérgico como Postiga e tão dinâmico como Derlei. Mas McCharthy é um goleador e essa característica nunca lhe pode ser negada. Jogadores como Liedson, Nuno Gomes, e Drogba (no Chelsea) tão amados pelas suas massas associativas pela disponibilidade e o coração que entregam em campo, são avançados que conseguem granjear mais mérito no suor que gastam do que na sua produção ofensiva. Ou seja são aquele tipo de jogadores que precisam de 10 oportunidades para marcar um golo, e que raramente fazem mais de 20 golos num campeonato.

McCharty é bem diferente. Ele é um nobre descendente da eficácia. Bom cabeceador, com remate portentoso, velocidade de execução, sereno e letal…McCharty é um ponta-de-lança…daqueles que nem sequer precisa de oportunidades flagrantes para marcar. Muitos que andam por esses relvados e quase que sangram para conseguir um golo são apenas “wanna be’s”.
Ele não é só o melhor Striker do FC Porto, ele é o melhor a actuar em Portugal. Por isso Victor Fernandez tem de acabar com os medos adjacentes ao estatuto de grande internacional brasileiro com que veio Luís Fabiano e colocar imediatamente este Sniper de elite. Lucrará ele, a sua equipa e o futebol espectáculo

terça-feira, setembro 21, 2004

Sporting

Atento a este início de campeonato, tenho assistido com dificuldade a um Sporting débil, incapaz e moribundo como há muito tempo não via. Desfavorecido com a lesão de Rochemback, com o eterno infortúnio de Sá Pinto e com a aproximação da reforma de Pedro Barbosa, o Sporting é hoje uma equipa corriqueira que devido a esta gritante carência de qualidade tenta converter o esforçado (pouco mais que isso) Liedson na sua mega-estrela e abono de família.

Por vezes o nome, a história e o estatuto amedrontam os adversários e servem para assimilar pontos que há partida seriam quase utópicos. Só assim é que este Sporting terá hipótese de lutar pelo título em Portugal. Porque se formos analisar os planteis de equipas como o Braga, Belenenses, Boavista, Guimarães ou Marítimo, fica-nos muito difícil dizer quais são as grandes diferenças de qualidade para com o plantel do Sporting.

Esqueçam os nomes e fixem-se só no trabalho futebolístico apresentado. Qual o jogador deste Sporting com nível de grande clube e que não podia mesmo jogar numa equipa de meio da tabela??? Pelas razões que citei no 1º parágrafo, neste momento temos que excluir Rochemback, Sá Pinto e Pedro Barbosa. E agora, quem sobra? Alguns dirão Beto e Polga. Mas se têm andado atentos, já devem ter reparado em Centrais como Nem, Éder, Sandro, Van Der Gaag ou Wilson que garanto-vos que não ficam nada atrás destes dois leoninos. Com tudo isto, podemos dizer que nesta altura só mesmo Liedson é que tem nível de Sporting. E isto porque tem estado em boa forma. Veremos o futuro.

Neste plantel, Sporting conta com jogadores como Miguel Garcia, Hugo, Tinga e Carlos Martins que apesar de muito abnegados e devotados por vezes conseguem mesmo roçar a mais alta mediocridade futebolística. Eles até dão tudo o que têm, mas infelizmente não conseguem mais. Então quando jogam todos juntos é um martírio. Aí o Sporting consegue falhar mais passes e ter mais imperfeições técnicas que uma equipa de infantis do Casal do Rato.

Se nada mudar, e se o Sporting não se refrescar em Dezembro, não só duvido que consiga chegar ao título como até a um lugar na Taça Uefa.

Esta é a minha equipa: Do mal ao menos.

Nelson
Mário Sérgio
Beto
Polga
Rui Jorge
Rogério
Rochemback
Tello
Pedro Barbosa
Sá Pinto
Liedson

terça-feira, agosto 03, 2004

Overmars

Fui lateral durante um ano e rapidamente adquiri uma personalidade amedrontada bem característica na maioria dos jogadores desta posição. Não há dúvida que durante um jogo, o lateral é aquele que está mais susceptível a humilhações, enxovalhos e rebaixamentos.

Estudei profundamente e criei antídotos eficazes para os vários tipos de extremos e para as suas principais armas de ruptura. No entanto há um tipo de extremo que toda a Nação de laterais teme criticamente. São aqueles que injustamente estão dotados de uma absurda velocidade de ponta e que ainda conseguem um notável controlo de bola a 300 KMh.

Overmars era o expoente máximo e a figura proeminente dessa raça de extremos. Juntamente com Figo e Ryan Giggs foi dos alas mais temidos dos anos 90. É impossível contabilizar o nº laterais que ficaram irremediavelmente traumatizados com as rupturas e fracturas que Overmars criava.

Num lance de um contra um, Overmars podia gerir tudo como quisesse, porque enquanto a maioria dos jogadores são Opel Corsas que atingem velocidades irrisórias no seu arranque, Overmars era um Porshe GT3 que atingia os 100KMh dos 0 aos 3 segundos

Um dos extremos mais rápidos da história do futebol e detentor de uma assombrosa mudança de velocidade, Overmars foi sempre o maior elemento de pânico das equipas adversárias que defrontou. Era sempre um momento de suspense elevado quando a bola chegava a um dos extremos do campo. Overmars que era um ambidestro favorecido recebia-a e fazia acontecer o inevitável...Mais um lateral estonteado e mais um cruzamento venenoso. Ou então mais um lateral atordoado e mais um remate mortífero.

Overmars traduzia-se em perigo ininterrupto, e nos seus melhores tempos, conseguia mesmo ter 100% de taxa de sucesso ao nível do drible. Devido a uma lesão arreliante teve que precipitar a sua reforma. A história registará os seus feitos e nós jamais o esqueceremos.

quinta-feira, julho 29, 2004

50 anos de UEFA

Este ano a instituição organizadora e reguladora do futebol europeu comemora o seu quinquagésimo aniversário. 50 anos de muitos Euros, Taças e Ligas de Campeões e também Taças Uefa. Eu que tenho quase metade dos anos que tem a Uefa, já assisti ao brilhantismo de muitas estrelas e de competições inolvidáveis.

Deixo-vos aqui a minha equipa maravilha, com os jogadores que já vivo e com consciência crítica tive o privilégio de ver jogar. Muitos deles ainda estão no activo.

Dream Team Europeu:
 
Buffon (guarda-redes)
Panucci (lateral-direito)
Thuram (defesa-central)
R. Carvalho (defesa-central)
Maldini (lateral-esquerdo)
Rijkaard (médio-defensivo)
Vieira (médio-defensivo)
Gullit (médio- ofensivo)
Zidane (médio- ofensivo)
Henry (avançado)
Van Basten (ponta-de-lança)

Dream Team 2
 
Preud’ Homme (guarda-redes)
S. Reuter (lateral-direito)
Nesta (defesa-central)
Baresi (defesa-central)
A.Brehme (lateral-esquerdo)
Deschamps (médio-defensivo)
Gerrard (médio-centro)
Figo (extremo-direito)
M. Laudrup (médio-ofensivo)
R.Giggs (extremo-esquerdo)
Van Nistelrooij (ponta-de-lança)

domingo, julho 25, 2004

Jogos Olímpicos

Os 18 convocados:

Moreira (guarda-redes)
Bruno Vale (guarda-redes)
Mário Sérgio (lateral direito)
Jorge Ribeiro (lateral esquerdo)
Ricardo Costa (defesa central) ou (lateral direito / esquerdo)
Bruno Alves (defesa central)
Fernando Meira (defesa central) ou (médio defensivo)
Bosingwa (lateral direito) ou (médio centro / direito)
Frechaut (médio centro) ou (lateral direito)
Raul Meireles (médio defensivo)
Tiago (médio volante)
Carlos Martins (médio volante)
Hugo Viana (médio volante)
Danny (médio ofensivo) ou (extremo esquerdo)
C. Ronaldo (extremo direito / esquerdo)
Boa Morte (extremo esquerdo) ou (avançado centro)
Lourenço (avançado centro) ou (extremo direito / esquerdo)
Postiga (ponta de lança)

Aí estão os 18 soldados, designados para conquistar Atenas. Fernando Meira, Frechaut e Boa Morte foram os três jogadores escolhidos com idade superior a 23 anos. É pena que esta competição não esteja a ser encarada com a seriedade que merece. Figo, Simão e muitos outros mais preocupados com questões pessoais e clubistas do que com a nobreza de servir o pais e participar nos Jogos Olímpicos, recusaram marcar presença.

Seria lindo, ver esta geração sub-21 de ouro, completada com alguns jogadores vice-campeões europeus. Apesar de José Romão ter ficado com o seu trabalho semi-boicotado, creio que poderia ter sido mais corajoso nas suas opções e convocar jogadores como Ricardo Carvalho ou Deco.

Era notório, que esta Selecção necessitava de um Defesa Central que acalmasse todo aquele espírito jovem, excitado e inexperiente, e que conseguisse fazer uma boa parelha com Ricardo Costa. Não havendo Ricardo Carvalho, creio que Fernando Meira é uma boa opção.

Para equilibrar com a valia cada vez mais imprescindível de Cristiano Ronaldo, também era necessário um extremo desequilibrador e confiante. Não havendo Figo, nem Simão, creio que se podia pensar em César Peixoto, Carlitos (o mais velho), Capucho, Nandinho ou Sérgio Conceição. Nunca fui muito fã do futebol esfomeado e descontrolado de Boa Morte. Mas enfim, creio que neste caso a sua força, vontade, raça e velocidade podem ajudar a equipa, motivar os companheiros e fazer com que nos esqueçamos de algumas das suas limitações técnicas.

O que sinceramente não percebi foi a inclusão de Frechaut neste grupo. Romão disse que se preocupou em escolher jogadores que gozam da virtude da polivalência. Frechaut é um médio centro que também pode actuar como lateral direito. Para o lado direito da defesa a selecção pode jogar com Mário Sérgio, Bosingwa e até Ricardo Costa. E no centro do meio campo, principalmente na zona defensiva (onde joga Frechaut) é onde esta Selecção Sub-21 tem mais jogadores (todos de boa qualidade). De fora até ficaram nomes como Custódio, Bruno Aguiar e Ednilson.

Era mais do que óbvio que a posição de preenchimento obrigatório para um jogador com mais de 23 anos, era a de médio ofensivo. Danny é o único jogador de raiz para essa função e como se sabe ainda precisa de muita maturidade, precisão e volume muscular. Trata-se da posição do nº 10. É a posição do gestor, condutor e também do criativo da equipa. Colocar Tiago, Carlos Martins ou Hugo Viana nesta posição fará com que a Selecção tenha menos vocação ofensiva. Sabendo que Rui Costa, Pedro Barbosa e até Deco estariam indisponíveis, porque não trazer Nuno Assis, Silas, João Pinto, Ricardo Sousa ou Neca?!

Creio ainda que esta Selecção sentirá a falta de um ponta de lança possante e eficaz no jogo aéreo. Hugo Almeida e Makukula seriam boas hipóteses, mas José Romão preferiu apostar apenas na mobilidade do ataque com Postiga, Lourenço e Boa Morte. Poderá sair caro este abdicar por completo de outro tipo de atacante. Em caso da Selecção ter que virar um resultado e precisar de ter presença de área e poder no jogo aéreo, as coisas poderão ficar bem complicadas por falta de soluções. Deus queira que não.

quarta-feira, julho 21, 2004

A Aposta na Formação

Por vezes tenho alguns ataques de riso, quando oiço dizer que em Portugal a aposta na formação de jogadores é uma coisa levada muito a sério. Não só é frequente vermos as nossas maiores promessas, com carências primárias de formação (não sabendo cabecear ou cruzar uma bola) como também é comum vermos os clubes em Portugal a inundar o mercado jovem de médios e a deixarem-no praticamente despojado de laterais e pontas-de-lança.
 
Mas sinceramente o que mais me choca é ver a leviandade com que os dirigentes dos clubes, encaram a ideia de formação. Na Holanda, principalmente em clubes como Ajax e PSV, os treinadores que assumem a responsabilidade de coordenar os escalões de formação, são homens de currículo feito, conhecedores e estudiosos do jogo e muitas vezes inovadores em metodologias de treino e na área do desenvolvimento técnico-táctico dos jogadores. Eles têm perfeita noção, de que para um clube que se diz formador, é mais importante ter os seus treinadores mais capacitados nos escalões jovens do que na Equipa A.
 
Portugal consegue criar alguns bons jogadores e ter êxitos nas camadas jovens ao nível das Selecções, porque é um país com grande potencial humano( graças há grande cultura futebolística que existe) e também porque na Federação existe a preocupação de contar com técnicos formados e conhecedores. Na maioria dos clubes acontece exactamente o contrário. O Sporting, por exemplo, não sabendo o que fazer com a antecipação da reforma de Paulo Bento, empurrou-o para o cargo de treinador da equipa de Juniores (última e principal etapa da formação, visto que o Sporting já não tem equipa B). Isto é prática comum na maioria dos clubes nacionais.
 
Paulo Bento sem experiência e sem conhecimento específico para estas andanças, terá a alta responsabilidade de formar e preparar jogadores no último estágio para equipa principal do Sporting. Esta é a aposta na formação que temos.

segunda-feira, julho 19, 2004

Quiroga

Certamente todos vocês já estão habituados, aos pseudo-grandes jogadores que todas as épocas a nossa imprensa desportiva (e não só) fazem questão de criar. Acho que Quiroga foi o caso mais flagrante dos últimos anos. Massivamente rotulado como defesa central fantástico, estupendo, assombroso e de mais mil e um adjectivos de circunstância, Quiroga beneficiou de uma enorme propaganda criada pela imprensa nacional a seu favor.
 
Apenas meia-dúzia de jogos bem conseguidos, antes de uma lesão na sua época de estreia, chegaram para criar esta corrente de opinião que rapidamente contagiou toda a população.
 
Curiosamente ou não, este jogador transcendente que foi trazido pelo treinador Mirko Jozic em 1998, teve mais 4 treinadores no Sporting ( Materazzi, Inácio, Boloni e Fernando Santos) e nunca conseguiu impor-se em nenhum dos 11’s destes técnicos.
Resumindo, Quiroga fez 5 épocas no Sporting (mais uma emprestado ao Nápoles, que não quis exercer o direito de opção) e foi titular durante 2 meses.
 
Nada tenho contra este jogador, mas sempre recusei-me a seguir as análises mal fundamentadas dos media, que tentavam tirar Quiroga da razoabilidade a que ele está e sempre esteve sujeito.
 
Com uma técnica satisfatória e difícil de ser ultrapassado com a bola pelo chão, Quiroga demonstrou ser ao longo destes anos, o tipo de Central que mais atemorizaram os guarda-redes. É um defesa pouco confiável, porque nunca sabe ter processos simples e dá sempre mais toques na bola do que aqueles que deve. Várias vezes víamos Quiroga dentro ou perto da sua área a querer driblar adversários ou a fazer passes de risco elevado. Por isso várias vezes vimos Quiroga a fazer erros grosseiros e irrecuperáveis. O seu jogo aéreo sempre foi precário muito por causa do seu físico desequilibrado que não lhe deixava impor-se perante outros mais bem estruturados. Era um jogador mediano e teve no Sporting um desempenho mediano. Coerência futebolística.
 
A sua agência de publicidade (a imprensa e os comentadores desportivos) tentou redimensionar o seu talento quando Marcelo Bielsa começou a convocá-lo para a Selecção alvi-celeste. Quiroga conseguiu jogar alguns jogos a titular, descaindo para a direita quando a Argentina jogava num sistema de 3 centrais. Mesmo considerado a posição muito específica, será que quem tem Milito, Collocini, Ayala ou Samuel precisa de ir pescar em águas tão escuras e duvidosas? Como Quiroga enganou toda a massa jornalística portuguesa, também é possível que esteja a enganar Bielsa (que provavelmente nem o conhece melhor que nós).
 
Enfim, Quiroga serviu para o Sporting sonhar e ainda acordar a tempo de ser realista vendendo-o para o Wolfsburgo (a preço de jogador empecilho). Bielsa como pragmático e realista por natureza não precisará de tanto tempo como o Sporting. Quem certamente nunca acordará é todo aquele povo que foi ilicitamente contaminado pela campanha mediática promovida por leigos que tentavam lançar a candidatura de Quiroga a novo Deus do futebol. Só que há uma verdade fundamental nestas coisas : Os produtos de sucesso antes de uma forte estratégia de marketing têm que ter  qualidade. Não era bem o caso.  
 
Nota: Já estão aí mais 2 blogs de futebol.  www.palavradovice.blogspot.comwww.treinadoresdebancada.blogspot.com  . Cumprimento estes meus 2 camaradas ( Vicente e Diogo) por terem chegado a este mundo da opinião livre ( mesmo que seja meio virtual). Vai ser uma enorme satisfação para mim, ir acompanhado as reflexões destes 2 Pensadores do desporto-rei. Não deixem de visitar.   

quinta-feira, julho 15, 2004

Outros méritos de Mourinho.

Um grande homem é aquele que deixa marcas inapagáveis por onde passa. Para além de todos os méritos que são conhecidos de Mourinho, eu reflectia há poucos dias sobre a excepcional capacidade que ele tem para moldar e transfigurar os seus atletas. Quando Mourinho entrou no Porto, o Sporting exibia nomes como João Pinto e Jardel, e o Benfica planeava construir uma equipa celeste com Mantorras, Simão e Zahovic. Mourinho resolveu formar uma equipa silenciosa com jogadores que estavam fora das luzes da ribalta e que hoje são incontestáveis, desejados e aclamados.

Vejamos:

Vítor Baía (antes de Mourinho) – Na preparação para o Mundial de 2002, muitos já contestavam a sua titularidade na Selecção Nacional e até já prenunciavam a sua morte futebolística.

Vítor Baía (depois de Mourinho) – Ganhou a confiança dos seus melhores tempos, e os mesmos que o criticaram, consideravam-no agora como o melhor guarda-redes português sem grande margem para subjectividades.

Paulo Ferreira (antes de Mourinho) - Lateral promessa do futebol português, como foi Paulo Torres, Nelson, Rui Óscar, Mário Silva, Bruno Basto, Patacas etc. Ainda no V. Setúbal e sem experiência de grandes clubes e grandes momentos.

Paulo Ferreira (depois de Mourinho) - Tornou-se num dos melhores laterais de Europa e protagonizou a maior transferência de sempre para um lateral. 20 milhões de euros.

Ricardo Carvalho (antes de Mourinho) - Defesa Central promissor como Beto, Litos, Pedro Emanuel e muitos outros. Nunca tinha passado pela Selecção A.

Ricardo Carvalho (depois de Mourinho) - Tornou-se no melhor defesa central do Mundo e com caminho e futuro para ser um dos melhores de sempre.

Nuno Valente (antes de Mourinho) - Lateral dispensado do Sporting que fazia épocas razoáveis no União de Leiria. Nunca tinha sido internacional A.

Nuno Valente (depois de Mourinho) – Hoje é incontestavelmente o melhor lateral esquerdo português.

Costinha (antes de Mourinho) - Suplente no FC Porto e muitas vezes quarta ou quinta opção para o meio campo da Selecção Nacional.

Costinha (depois de Mourinho) - Titularíssimo na Selecção nacional e cobiçado por clubes como Real Madrid.

Maniche (antes de Mourinho) – Jogador praticamente rejeitado pelo Benfica que tinha ficado uma época inactivo. Ninguém perspectivava que voltasse a um clube grande e muito menos que chegasse à Selecção A.

Maniche (depois de Mourinho) - Um dos melhores box-to-box do mundo. E certamente o melhor de sempre do futebol português.

Deco (antes de Mourinho)- Jogador genial, mas ainda à espera de uma explosão e confirmação definitiva.

Deco (depois de Mourinho)- Fez a melhor época de sempre, quando o Porto ganhou a Taça Uefa. Roubou o lugar que Rui Costa já tinha há mais de 10 anos no meio campo da Selecção e foi vendido a preço de estrela para o Barcelona.

Derlei (antes de Mourinho)- Jogador que fez 3 anos na União de Leiria, e que se provavelmente Mourinho não o trouxesse para o Porto, ninguém reivindicaria um lugar para ele num clube grande.

Derlei (depois de Mourinho)- Considerado por muitos como um dos melhores jogadores da Super Liga. O ano passado, antes da sua lesão, marcou 13 golos só na primeira volta.


Mourinho. Grande demais para um país tão pequeno.

segunda-feira, julho 12, 2004

Rui Costa

Mudei-me há 6 anos para a Damaia e ao contrário do que me era dito, encontrei uma freguesia ordeira, pacata onde só esporadicamente acontecem sobressaltos. Depois de recolher alguns testemunhos supostamente credíveis, soube que no passado o cenário era bem mais dramático. Via-se muita tensão, desespero, precipitação e várias incompatibilidades entre a lei e os miúdos das zonas degradadas. Damaia era uma freguesia aflita, ensombrada e algo ameaçadora.

Entretanto havia algo que contrastava com o espírito deprimido desta povoação e que espalhava alegria, ilusão e fascínio por todos os habitantes. Era o futebol de Rui Costa. Por todos os rings da zona deixou um perfume raro e divinal que enfeitiçou todos aqueles que o viram jogar, ainda com um físico subdesenvolvido.

Rui Costa é um percursor do futebol poético. Um futebol exigente e perfeccionista onde todas as acções se desenvolvem com requinte e subtileza. Foi agraciado por Deus, que lhe deu o pé direito mais delicado do futebol português. Sempre soube que era um privilegiado e sempre justificou essa bênção. Cada passe seu era um desafio revolucionário à ideia intangível de perfeição. Detentor de um drible linear e eficaz que só os jogadores de Q.I. superior conseguem aplicar no relvado. Rui Costa ridicularizava os jogadores comuns. Era um homem de grandes golos, porque como sobredotado que era não se satisfazia com coisas triviais. Rui queria o estádio levantado, queria fazer o mais difícil, o mais complexo, queria fazer tudo aquilo que não estava ao alcance dos normais.

Toda a vida usou a camisola nº 10. Uma camisola que Platini, Maradona, M.Laudrup ou Zidane adorariam trocar pelas suas no final de um jogo. Rui é uma criação divina, como tal está protegido por Deus, e assim como Zizou conseguiu sobreviver ao fundamentalismo táctico do futebol italiano que até aos dias de hoje tem aniquilado brutamente inúmeros criativos. Mas ele, aguentou, resistiu, brilhou, encantou e foi coroado Príncipe de Florença nos seus tempos de Fiorentina.

No dia 4 de Julho de 2004, dia negro e traumatizante para o futebol português, fez o seu último jogo pela Selecção Nacional. Levou consigo o encantamento, a fantasia e a sedução que Portugal exibiu pelo mundo. Obrigado Rui.

sexta-feira, julho 09, 2004

Onde estiveram as estrelas?

Passei hoje pelo blog, www.garoupinichronicles.blogspot.com, do meu caro amigo, ex-companheiro de equipa, ex-colega de curso e também grande crítico de futebol Luís Garoupa e confrontei-me com a seguinte frase: “4 de Julho de 2004. O dia em que o futebol morreu de vez.”. Garoupa aludia-se implicitamente ao facto de uma equipa defensiva como a Grécia ter-se sagrado campeã europeia.

Sinceramente também não gostei. Acho que não é bom para o futebol que equipas que abordam o jogo de forma cínica e mórbida possam ganhar jogos quase sem atacar, e cuja a solução para marcarem golos é somente aproveitarem-se dos erros dos outros.

Mas a verdade é que a Grécia não é a primeira equipa na história do futebol a levar esta filosofia para os terrenos de jogo. A diferença crucial é que esta equipa grega conseguiu ser campeã europeia. Terá a Selecção de Rehhagel algum segredo bem guardado? Em minha opinião sim e não.

Não é novidade para ninguém que o futebol tem-se tornado cada vez mais defensivo, e que é mais importante para uma equipa de sucesso defender bem do que atacar bem. Olhem para os últimos campeões europeus e mundiais:

Mundial 90 – Alemanha (Já todos sabemos. Selecção organizada e disciplinada que põe sempre o colectivo acima do individual)

Euro 92- Dinamarca ( Selecção cuja a principal arma era o contra-ataque)

Mundial 94- Brasil ( Treinado pelo cauteloso Parreira. Este Brasil foi campeão a jogar no meio campo com Dunga, Mauro Silva e Mazinho. Praticamente 3 médios defensivos.)

Euro 96- Alemanha

Mundial 98- França ( Karembeu, Deschamps e Petit no meio campo, para além da sólida defesa que conhecemos)

Euro 2000 – França (Vieira, Deschamps e Petit no meio campo. Estrutura muito semelhante à de 98)

Mundial 2002- Brasil ( foi a primeira vez na história dos mundiais que o Brasil jogou com 3 centrais)

Euro 2004 – Grécia


Todas estas selecções tinham grande solidez defensiva, mas tinham ao mesmo tempo estrelas capazes de resolver alguma insuficiência ofensiva. Então como é que esta Grécia sem estrelas e praticamente só a defender conseguiu este título?

Há muitas equipas a jogar com sistemas ultra-defensivos, mas a maioria não tem jogadores habilitados para tal. Uma equipa que pretende aguentar massacres atacantes em 90 minutos, tem que ter jogadores com enorme frescura física, dominadores no jogo aéreo, fortíssimos a defender no um contra um ( também para evitar faltas no último terço de terreno) e com boa técnica para esfriar o jogo através de uma posse de bola segura. Depois é só ir resistindo até que o adversário cometa erros ou assuma riscos irracionais. Foi uma equipa assim que Rehhagel criou. E o resultado não podia ter sido melhor.

Apesar de ser uma equipa de excepção nestes moldes, não se pode pensar que a Grécia é uma equipa imbatível ou que é favorita contra as grandes potências do futebol mundial. Nem pensar. Quem viu os jogos contra a Espanha e contra a República Checa neste Euro 2004 percebeu isso (também há sorte no futebol). O jogo contra a Rússia não conta porque aí eles tiveram que vestir outra pele e assumir o jogo.

Então porque é que Portugal não conseguiu? Contra um muro humanizado, inteligente, versátil e competente como o grego, só o talento, a magia e o improviso pode contorná-lo ou derrubá-lo. O dia 4 de Julho teria que ser o dia do futebol. Teria que ser o dia das estrelas. Dia de Figo, Deco e Cristiano Ronaldo. Os grandes estrelas vêm-se nos grandes momentos. E estes 3 jogadores esforçados e dedicados confirmaram-me que são bons jogadores, mas pouco mais que isso.

Figo (estrela que já não brilha). Corre, luta, tenta mas já não consegue. A vida é assim, tudo tem o seu tempo. O jogo com a Holanda enganou muita gente.

Deco (estrela de brilho intermitente) pareceu-me cansado e trouxe um futebol entristecido para o Euro. Apesar de tudo foi sempre abnegado.

Cristiano Ronaldo (estrela que ainda não brilha) pode vir a ser um dos grandes jogadores do futebol mundial. Mas por enquanto ainda é miúdo e tem futebol de miúdo. Não se podia pedir que aos 19 anos fosse o impulsionador desta Selecção.

Portugal tem estrelas (Ricardo Carvalho e Maniche), só é pena que estejam lá atrás. Ricardo é defesa e Maniche é um volante construtor e não um médio de desequilíbrios.

Também tenho medo que esta vitória da Grécia torne o futebol do futuro mais cobarde e calculista. Mas acho que consigo ser mais optimista que Garoupa e não acredito que o futebol tenha morrido a 4 de Julho, acho sim que foi raptado e os nossos heróis portugueses não tiverem super-poderes suficientes para o resgatar. Quando esta ou outras Grécias defrontarem numa final uma boa equipa com heróis a sério (estrelas de brilho permanente), tenho a certeza que o futebol ficará a salvo.

quarta-feira, julho 07, 2004

Quaresma

Porto acaba de contratar Ricardo Quaresma por 5 épocas. Como não sou daqueles analistas abutres que só dão opiniões à posteriori e esperam dilacerar os jogadores quando já estão moribundos, vou-vos já dizer o que penso de Quaresma, mesmo sem saber se será bem ou mal sucedido no FC Porto.

Para muitos Quaresma é um miúdo prodígio, que reinará no futebol europeu durante esta década e que se afigura como o sucessor natural de Luís Figo. Eu digo-vos com grande margem de antecipação que mais do que Hugo Leal, Edgar, Dani ou Dominguez, Ricardo Quaresma será a grande desilusão para os adeptos esperançosos do futebol português.

Os entusiastas do futebol rendilhado, apaixonaram-se platonicamente por Quaresma, mal viram o seu espectáculo circense com danças e rodriguinhos. Eu acautelei-me, porque como observador atento do futebol brasileiro, já tinha visto nascer inúmeros jogadores assim, e que hoje andam perdidos em segundas e terceiras Ligas.

Mais do que uma boa (mas mal explorada) capacidade de drible reparei em Quaresma uma excelente mudança de velocidade. Mas ao contrário de penetradores como Vicente, Joáquin ou Overmars que passam pelos adversários indo para cima deles, depois mudando de velocidade no timing certo sem sequer precisarem de gingar, Quaresma prefere perder mais 5 minutos só para mostrar à audiência o seu reportório de dribles.

Dir-me-ão vocês: “Mas ele ainda é miúdo, mudará certamente!”. Sim é verdade. Quaresma só tem 20 anos e daqui a uns anos estará muito mais inteligente. Mas o problema é outro. É que de grande jogador Quaresma só tem o drible e a mudança de velocidade. É preciso muito mais que isso. Nem Denilsson que é o driblador tecnicamente genial conseguiu singrar no futebol europeu, quanto mais o nosso limitado ciganinho.

Um jogador perto de fazer 21 anos, já não consegue ter grandes evoluções físicas e técnicas. Só a cabeça pode mudar radicalmente. Mas Quaresma ainda é um jogador com grandes problemas técnicos. A sua recepção de bola é normalmente muito lenta e muitas vezes deficiente. Os seus cruzamentos raramente são rápidos e tensos. Muitos deles até vão para fora do campo. Quaresma é capaz de falhar não poucas vezes passes de 5, 6 metros. Os seus passes longos também deixam muito a desejar. Para além disso a transposição que faz do ataque para a defesa é sempre relaxada e negligente. É um jogador de muitos defeitos, e nos dias em que os dribles não saem, torna-se num jogador desprezível.

Não digo que não seja um jogador para o FC Porto, mas posso afirmar que não tem nível para jogar a titular e muito menos para se impor como estrela da equipa.

domingo, julho 04, 2004

Euro 2004

O 11 do Euro:

Buffon (Itália)
Seitaridis (Grécia)
R. Carvalho (Portugal)
Dellas (Grécia)
Jankulovski (R. Checa)
Gravesen (Dinamarca)
Maniche (Portugal)
Nedved (R. Checa)
M. Petrov (Bulgária)
M. Baros (R. Checa)
Nistelrooy (Holanda)

Melhor Jogador: Ricardo Carvalho
Melhor Jogo: Holanda vs R. Checa
Melhor Equipa: República Checa ( nem sempre a melhor equipa ganha)
Melhor Treinador: Otto Rehhagel ( seria o melhor, mesmo que Portugal ganhasse)
Melhor Golo: Rui Costa – no jogo contra a Inglaterra
Equipa Desilusão: França
Jogador Desilusão: Zidane (França)
Jogador Revelação: M. Petrov ( Bulgária)
Melhor sub-20: Rooney (Inglaterra)
Melhor + 32: Zagorakis (Grécia)

quinta-feira, julho 01, 2004

À procura da perfeição

Quem diria. Portugal na final de um campeonato de europa. É merecido. Bem merecido. Mais do que a presença de Portugal nesta última etapa do Euro, o que mais me entusiasma é ver esta Selecção oprimir futebolisticamente algumas das melhores Selecções do Mundo. Não é só a questão de ganhar os jogos. Hoje Portugal ganha com arrogância. Domina e subjuga adversários como Espanha, Inglaterra e Holanda passando a mensagem de que é superior e de que é uma equipa de top.

Antigamente quando se ganhava a estes Golias, era sempre com esquemas defensivos contra-natura, que depositavam a fé em golos de contra-ataque ou em falhas contrárias.

Mas a verdade, é que uma campeã não é só aquela que manda no jogo e que consegue ter a maior percentagem de posse de bola. Quando necessário uma equipa campeã tem que ter estofo para sofrer, recuando no terreno e defender bem para retirar espaços ao adversário. Ou seja, uma grande equipa tem que estar confortável a atacar, e nunca pode entrar em pânico quando sofre uma avalanche ofensiva. Esta selecção já consegue desempenhar bem esses dois papéis.

A defesa portuguesa (Miguel, R.Carvalho, J. Andrade, N.Valente) complementada por Costinha, Maniche e o sempre disponível Deco, tem estado excepcional. Ricardo agradece porque tem sido dos guarda redes com menos trabalho neste europeu.

Mas apesar dos resultados estarem a aparecer e de estarmos a viver um sonho, Portugal ainda tem algumas questões que pode resolver para se aproximar da perfeição:

É preciso que Deco se assuma. Queremos o Deco do Porto. Aquele que arrisca, que remata, que dribla, que ganha faltas à entrada da área e que faz passes que são meio golo. Deco tem vindo a cair de jogo para jogo. Está a cumprir, mas pede-se mais. Pede-se que brilhe.

Pauleta por incrível que pareça, com 31 anos parece o mais novo e menos experimentado desta Selecção. Desde que começou o Euro, tem demonstrado em todos os lances que participa que está estupidamente nervoso e ansioso. Em recepções de bola parece um benjamim nos primeiros dias de aprendizagem, e anda a falhar golos que nunca o vimos falhar.

Um mal que veio por bem, foram as pouco convincentes exibições de Figo até ao jogo com a Holanda. Os holandeses caíram no erro de o desprezar e deixaram-no completamente solto na primeira parte. Há anos que Figo não via tanto espaço e leviandade à sua frente. Aproveitou da melhor maneira (só faltou o golo). Apesar de ser difícil repetir uma exibição destas na final, pelo menos já ganhou confiança e auto-estima suficiente para poder ser decisivo.

segunda-feira, junho 28, 2004

A Selecção

O desaire ante a Selecção Grega teve o efeito positivo de fazer com que Scolari tomasse algumas decisões de ruptura com o passado, e 3 jogos depois podemos dizer que têm dado resultados tremendos.

Portugal é neste momento uma selecção compacta, sólida e que dura 90 minutos com uma frescura física assinalável.

A defesa é extraordinária. Rápida, forte e dá-nos uma tal sensação de segurança que por vezes parece ser inultrapassável. Não me lembro de ver uma defesa portuguesa tão competente.

O meio-campo tem uma enorme elasticidade, capaz de ter uma boa envolvência ofensiva e igualmente capaz de fazer uma boa cobertura defensiva.

Contudo ainda há coisas nesta Selecção, que uma vez melhoradas poderiam torná-la numa equipa quase imbatível.

Vejamos:

Não se iludam, não é pela injecção de moral que Ricardo ganhou no jogo com a Inglaterra que ele já se tornou no guarda-redes seguro que todos desejamos. Ricardo ainda revela graves problemas no jogo pelo ar. A confiança que tem neste momento pode permitir que esteja mais tranquilo e que tenha melhores prestações, mas ainda acho que é o ponto mais fraco desta Selecção.

Ao contrário de muitos, acho que o trio que tem ultimamente jogado atrás do ponta de lança (Figo, Deco e Cristiano Ronaldo) ainda não atingiu o seu pique de produtividade. Estão em bom nível, mas ainda não fizeram aquelas exibições de encher o olho. Se Deco, Figo e Cristiano Ronaldo conseguirem pôr toda a sua magia em campo, com dribles, passes mágicos, cruzamentos letais e com poucas percas de bola, Portugal poderá arrasar qualquer adversário.

Se forem a ver a história dos Euros e dos Mundiais, concluirão que raramente se vê uma Selecção campeã sem um goleador. Exige-se que o ponta de lança de uma Selecção que quer ser campeã faça pelo menos 3, 4 golos numa competição como esta.

Portugal tem 5 golos marcados em 4 jogos. Isto não é mau. Mas se virmos que 80% desses golos foram marcados por suplentes e depois dos 60 minutos, ou seja quando as equipas perdem fulgor físico e quando o jogo começa a ficar descaracterizado, acho que é razão para ficarmos preocupados. Creio que a inspiração dos pontas de lança ( Pauleta principalmente) será crucial para o sucesso.

domingo, junho 27, 2004

Maniche

A Escola Preparatória Pedro de Santarém em Benfica, foi o centro público de educação onde concretizei o 2º e 3º ciclo (do 5º ao 9º ano) e onde conheci o nosso muito estimado Maniche. Dividimos muitas horas em desafios de futebol, jogados nos intervalos das aulas e em torneios inter-turmas. Maniche era o miúdo prodígio e por isso o mais popular e aclamado de todas as escolas das redondezas.

No entanto havia uma particularidade no futebol de Maniche que confundia e perturbava todos aqueles adolescentes naturalmente ainda comprometidos com a ingenuidade. Maniche não driblava. Enquanto todos os outros dedicavam 90% do seu tempo a aprender e a inventar novos malabarismos com a bola, Maniche era capaz de marcar 10 golos em 20 minutos sem uma única ginga.

Ele com os seus 12, 13 anos tinha uma maturidade precoce e já conhecia melhor do que ninguém os caminhos mais curtos para se chegar à baliza.

Hoje Maniche (Nuno Ribeiro) é um imprescindível da Selecção Nacional, e um dos jogadores mais regulares e produtivos deste Euro 2004. Com oportunidade de observar com mais distância e propriedade, talvez aqueles jovens (agora adultos em formação) que transpiraram com Maniche nos campos da Pedro de Santarém já percebam qual era o seu segredo para ser tão eficiente e espectacular sem recorrer a dribles.

Irrepreensível na recepção de bola, no remate, no passe curto e longo, e com uma arrepiante velocidade de execução, Maniche é aquele centro-campista que saiu das escolas de formação com nota 20 em todas as áreas. Por ter aprendido convenientemente todos os fundamentos do jogo, ele apresenta sempre mil soluções para sobreviver nestes meio campos congestionados que o futebol moderno criou. É como um holograma em movimento, que aparece e desaparece impedindo que os seus adversários o localizem. Tem o futebol do toca e foge que desordena qualquer esquema táctico do oponente. Omnipresente. Por mais longas e rápidas viagens que a bola faça, Maniche está lá sempre a criar uma linha de passe, propondo-se assim a ajudar um seu companheiro mais enrascado. É um jogador de equipa, e nunca se oferece para se consagrar individualmente através da monopolização da bola. Em cada lance Maniche nem chega a detê-la durante mais de um segundo, ele só joga a um dois toques, porque ao contrário dos malabaristas da Pedro de Santarém (hoje cracks em partidas de solteiros vs casados), o que lhe interessa é a forma mais rápida de chegar à baliza.